Existe Relação entre Próteses de Mama e Câncer?
Dr Fábio BusnardoDoutor em Medicina pela Universidade de São Paulo
Cirurgião Plástico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo
Diretor Técnico da Gran Clinic
O relato recente sobre problemas relacionados às próteses mamárias da empresa francesa PIP (Poly Implant Prothèse) trouxe preocupação para milhares de mulheres brasileiras. A notícia de que existe risco aumentado de rotura da prótese (ou implante), associado a eventual utilização pelo fabricante de silicone não aprovado para uso médico, atinge diretamente cerca de 12000 mulheres submetidas a cirurgias estéticas ou reparadoras em nosso país, nas quais as próteses deste fabricante foram implantadas. Existe entre estas pacientes o receio de rotura do implante e a dúvida quanto à necessidade de troca imediata das próteses. Entretanto, o maior medo está relacionado à possibilidade de que esses implantes (ou o silicone utilizado) possam dar origem a tumores malignos na mama.
As próteses, ou implantes, mamários são utilizados desde a década de 1960 para cirurgias estéticas e reparadoras das mamas. Inúmeros estudos demonstram que não existe relação entre o uso desses dispositivos e o aparecimento de câncer de mama. O FDA (órgão do governo americano que regula o uso de dispositivos médicos e medicamentos) publicou em junho de 2011 uma revisão sobre o tema. Essa revisão reforça a ausência de relação entre o uso de próteses mamárias e câncer. Análise realizada na Europa evidencia que mesmo entre as portadoras dos implantes franceses da PIP não foi observada esta relação.
Os tumores malignos da mama são muito frequentes em nossa população. Estima-se que uma entre 10 a 15 mulheres desenvolverá câncer de mama durante sua vida. A estimativa do Instituto Nacional do Câncer é que neste ano 52.680 brasileiras serão diagnosticadas com este tipo de tumor. Portanto, é possível que mulheres com próteses mamárias recebam tal diagnóstico. Entretanto, a taxa de incidência é a mesma entre mulheres com ou sem os implantes. Um dos cuidados que mulheres com prótese devem ter é no exame para rastreamento de tumor da mama que toda mulher acima de 40 anos precisa realizar. A mamografia anual deve ser feita tal como em mulheres sem implante. Eventualmente, exames ultrassonográficos ou de ressonância nuclear magnética podem ser usados para complementar as informações da mamografia.
Todo procedimento cirúrgico necessita ser estudado e realizado com extremo critério. O uso das próteses não deve fugir a esta regra. Infelizmente, no caso dos implantes mamários franceses da PIP, o fabricante utilizou material diverso daquele aprovado pelas agências de vigilância na fabricação das próteses. A orientação do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica é que as pacientes com esse tipo de implante procurem seus médicos para esclarecimento e eventual troca das próteses. Entretanto, não devemos esquecer neste momento difícil o grande benefício que os implantes trouxeram à Medicina e à cirurgia reconstrutiva da mama nos últimos 50 anos. Estima-se que entre 5 a 10 milhões de mulheres no mundo tem implantes mamários para fins estéticos ou reparadores.
Portanto, à pergunta se existe relação entre o uso de próteses mamárias e o aparecimento de câncer de mama, podemos responder que: estudos com milhares de pacientes realizados nos últimos anos indicam que NÃO. A relação entre prótese de mama e câncer pode até ser encarada de maneira inversa. Hoje, milhares de cirurgiões reparadores em todo o mundo tem nessas mesmas próteses um dos principais métodos para a reconstrução de mamas amputadas ou parcialmente retiradas para o tratamento do câncer. A reparação da mama possibilita que as mulheres encarem de forma melhor o difícil tratamento oncológico. Além disso, proporciona retorno digno e precoce a suas atividades habituais e convívio familiar sem o estigma de uma cirurgia mutiladora.
